Aproximadamente 90km separam o Circuito Liberdade, na área centro-sul da capital mineira, das belezas naturais e da riqueza cultural de Belo Vale. Localizada na região central de Minas Gerais, dentro do chamado quadrilátero férrico, a história da cidade se confunde com a memória e a construção da vida social no estado. Por volta de 1735, o território, conhecido naquele tempo como Santana do Paraopeba, começou a atrair nomes influentes no cenário econômico e político do país, como o General Romualdo Monteiro de Barros, o Barão de Paraopeba, que adquiriu, em 1790, a charmosa Fazenda Boa Esperança. Patrimônio cultural, material e paisagístico, o local foi reaberto este mês para a visitação do público. Após dois anos fechada para reformas e restauração, o Governo do Estado de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo e do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG), em parceria com a APPA - Arte e Cultura, reabre as portas do complexo com uma exposição de longa duração sobre a história do espaço e projeto educativo, que busca construir, com educadores formais e informais, conhecimentos acerca da temática do patrimônio cultural.

Fazenda Boa Esperança | Crédito: Vinícius Silva

Para o secretário de Estado de Cultura e Turismo, Marcelo Matte, a reabertura da Fazenda Boa Esperança deve ser celebrada e enaltecida, pois amplia ainda mais a importância cultural e turística do território mineiro. “Minas Gerais é o estado brasileiro que tem o maior número de bens tombado pela Unesco e pelo Iphan. E é o mais rico em número e importância de equipamentos históricos. Nós temos um patrimônio cultural fantástico, riquíssimo, diverso. E esse é o nosso principal ativo para a atração turística. O turismo gera emprego, renda, e produz crescimento econômico”, pontua Matte.

História

Fazenda Boa Esperança - Crédito_Vinícius Mauro Silva

Inaugurado em 1822, a fazenda, construída por escravos a partir de 1760, se tornou referência em produtos agrícolas, especialmente cana de açúcar, fornecendo garapa, cachaça, e rapadura para as cidades do entorno, inclusive Ouro Preto, que à época (1711-1823) se chamava Vila Rica e foi capital da província do estado mineiro após a independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822. O casarão chegou a hospedar D. Pedro II, que visitou a região com o objetivo de levantar recursos para tornar o país independente de Portugal. A propriedade, que também foi ponto de encontro de barões, bandeirantes e negociantes de ferro, recebeu o poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade nos anos 70. O escritor foi um dos responsáveis pelo inventário de bens para o tombamento realizado pelo Iphan, em 1978. O Iepha-MG já havia promovido o tombamento do complexo em âmbito estadual em 1970, preservando-o como registro histórico do modo de vida das sociedades rurais do período colonial brasileiro.

Interior do casarão da Fazenda Boa Esperança | Crédito: Vinícius Silva

Segundo documentos da época, o Barão de Paropeba, que teve 11 filhos e morreu soterrado após o desabamento de uma mina, possuía aproximadamente 1.200 mil escravos e era considerado um homem extremamente cruel. As comunidades quilombolas de Boa Morte e Chacrinha dos Pretos, descendentes dos povos escravizados pela família Monteiro de Barros, vivem hoje no entorno da Fazenda e também serão beneficiadas com a reabertura do local. De acordo com a presidente do Iepha-MG, Michele Arroyo, os quilombos são vitais para a compreensão e dimensão da história do complexo, cercado pelas riquezas do período, pelas belezas naturais e também ligado às atrocidades cometidas pela escravidão no Brasil. “Além do papel do Iepha-MG na restauração e reforma do espaço, nosso esforço também se concentrou no direito que as duas comunidades possuem de ocupar a fazenda e ressignificar a própria história, trazendo novos elementos para compreender o passado de Minas Gerais”, avalia Michele. Para conhecer mais um pouco da trajetória das comunidades, os visitantes podem conferir no interior do casarão histórico um documentário sobre os quilombolas presente na exposição de longa duração.

Museu do Escravo

Belo Vale ainda conta com o Museu do Escravo, que possui um dos acervos mais relevantes sobre o período da escravidão no país. O espaço, que é composto por seis salas, abriga mais de 3.500 peças e joga luz nos horrores sofridos pelos escravos em quase quatro séculos submetidos à violência no Brasil. Dentre os artefatos expostos, destacam-se o Tamanco do Suplício, uma espécie de sandália de ferro, com salto alto nos dedos e um prego no meio. O objeto era uma forma de castigo e a cada passo dado pelo escravo o prego era inserido cada vez em sua pele. Outro artefato utilizado para penalização era a Máscara de Flandres, ou Máscara de Jejum, que evitava que os descendentes de povos africanos comessem. O Tronco Vira Mundo é mais atrocidade evidenciada pelo museu. Essa punição consistia em amarrar o escravo em pé ao tronco, com suas mãos presas aos próprios tornozelos. O espaço ainda conta com uma escultura de concreto, de autor desconhecido, de um escravo sendo açoitado no tronco.

Comunidades quilombolas de Boa Morte e Chacrinha dos Pretos

Criado no ano de 1975, em Congonhas, pelo padre belo-valense José Luciano Jacques Penido, o museu foi transferido em 1977 para Fazenda Boa Esperança. Em 13 de maio de 1988, nos cem anos da abolição da escravatura, o acervo foi transportado para uma casa no centro de Belo Vale, ao lado da Matriz de São Gonçalo. O casarão, em estilo colonial, foi projetado por Ivan Pavle Bojanic e sua arquitetura foi inspirada na Cadeia Pública de Mariana.

Viramundo - Divulgação Museu do Escravo

O Museu do Escravo possui em seu acervo a edição do jornal “A Imprensa Fluminense”, que traz em primeira mão a notícia da abolição. O local, também possui um oratório com detalhes em folha de ouro, no estilo barroco do século XVIII. A peça foi trazida de Curvelo pelo padre Luciano.

Próximos passos

Com a reabertura da Fazenda Boa Esperança, novas ações para promover o turismo na região estão sendo pensadas pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo e o Iepha-MG. A ideia é transformar o espaço em um parque turístico e aproveitar os 300 hectares de terra que circundam o complexo. “Pretendemos transformar a fazenda em parque estadual para potencializar o uso turístico do local, uma das ideias é promover passeios pelas trilhas e cachoeiras que cercam a fazenda”, diz Michele.

 

O secretário de Estado de Cultura e Turismo, Marcelo Matte, acredita que a diversificação da base econômica de Minas Gerais por meio da atividade cultural e turística é fundamental para o desenvolvimento sustentável do estado. “Precisamos investir na economia criativa, na ativação econômica pela diversificação de sua matriz. Os ativos culturais do nosso território podem ser uma ferramenta de pulsão da economia, geração de emprego, renda, arrecadação de impostos, enfim, de crescimento econômico, que gera qualidade de vida para as comunidades do entorno”, afirma Marcelo Matte.

Roteiro turístico

Quem se desloca até Belo Vale, seja de Belo Horizonte ou outro local, pode contemplar as belezas naturais às margens da estrada. Ao sair da BR-040, e adentrar os caminhos que levam até a cidade, via MG 442, o visitante se depara com cachoeiras e inúmeras plantações de mexerica e café, tornando a viagem ainda mais relaxante e acolhedora. A paisagem encantadora evidencia a imponente Serra da Moeda, que conta com o Mirante Topo do Mundo e sítios arqueológicos, da época do ciclo do ouro.

A Fazenda Boa Esperança integra a região do Circuito Veredas do Paraopeba, que é composto por 19 municípios e diversas atrações históricas e naturais. O roteiro inclui montanhas, cachoeiras, trilhas e museus, como o Instituto Inhotim, em Brumadinho, considerado o maior centro de arte contemporânea a céu aberto do mundo.