Conceição Evaristo - Crédito Gustavo Miranda

Uma das principais premiações do gênero no país, o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, da Secretaria de Estado de Cultura, anuncia os vencedores de mais edição. A mineira Conceição Evaristo, nascida no morro do Pindura Saia, em Belo Horizonte, é a grande vencedora do edital. Pela primeira vez, uma escritora negra é a ganhadora na categoria Conjunto da Obra. Autora de uma obra extensa, que inclui prosa e poesia, a belo-horizontina também ficou conhecida pela importância e densidade de seus romances, como “Ponciá Vicêncio” (2003) e “Becos da Memória (2006)”, que trata da complexidade humana e dos sentimentos de quem sofre com o preconceito, a fome e a miséria. “Estou muito feliz e emocionada com o prêmio que vêm da minha terra. Ontem (29/11) foi meu aniversário. É mesmo um presentão”, afirmou, bem-humorada, Conceição Evaristo.

Segundo Lucas Guimaraens, superintendente de Bibliotecas Públicas e Suplemento Literário da Secretaria de Estado de Cultura, a poesia de Conceição consegue aliar, de modo magistral, forma e conteúdo. “É muito comum termos poemas carregados de sentimentos, às vezes muito fortes, mas embalados por uma frágil arquitetura verbal. Em Conceição vemos uma impressionante consciência formal”, afirma.

O prêmio tem como objetivo divulgar a literatura brasileira, reconhecendo grandes nomes nacionais e abrindo espaço para os jovens escritores mineiros. O edital distribui R$ 258 mil em quatro categorias: Poesia (R$ 30 mil); Ficção (R$ 30 mil); Conjunto da obra (R$ 150 mil); e Jovem Escritor Mineiro (R$ 48 mil).

Mulheres mostram a força de sua produção

Além da vitória de Conceição Evaristo, as mulheres levaram prêmios em todas as outras categorias desta edição. Na categoria Ficção (Romance) a obra vencedora foi “Mobiliário para uma fuga em março”, sob o pseudônimo O. Callas, de Marana Borges. Na categoria Poesia, a obra vencedora foi “Fabulário”, sob o pseudônimo Esme, de Ana Cláudia Costa dos Santos. A Jovem Escritor desta edição é Sara Abreu Pinheiro e Silva, que venceu com o projeto “Membro Fantasma”. Na categoria Jovem Escritor, a Comissão Julgadora decidiu também dar menção honrosa para “A Casa dos Amores Loucos” com pseudônimo Tatiana Metanova e de autoria de Giovanna Ferreira Silva.

Para o professor João Batista Santiago Sobrinho, jurado da categoria Romance, o livro de Marana Borges é um trabalho escritural denso com metáforas surpreendentes. “A autora correu riscos poéticos muito acertados numa linguagem que nos desprograma e dessa forma nos retira do lugar comum. Prosa poética imaginativa em torno de uma casa, onde a personagem narradora faz atravessar inúmeros tempos, um caos de olhares e afetos atravessando o corpo que lembra, sofre, ama, odeia intensamente”, pontua João.

Jurado na categoria Poesia, o poeta e escritor Ricardo Aleixo conta que bastou uma rápida folheada para identificar no livro de Ana Cláudia Costa dos Santos uma poeta digna do nome. “Trata-se de alguém que leu bem a melhor poesia nossa, que lida de forma bastante competente com a camada sonora do texto – ponto fraco da maior parte do que se publica no Brasil, hoje”, avalia Ricardo.

Cléber Araujo, jurado na categoria Jovem Escritor, conta que a amostra de texto literário apresentada no projeto permitiu que os jurados vislumbrassem com clareza a potencialidade da escrita do proponente e as chances concretas de um resultado relevante. “Membro Fantasma é estruturalmente muito bem elaborado, pois a concatenação de artifícios feita, atribui um aspecto polifônico e jornalístico ao texto”, conta Araújo.

Conheça um pouco das obras e das escritoras premiados

Sara Pinheiro

“Membro Fantasma”, vencedor na categoria Jovem Escritor, relata a trajetória de Diana, uma brasileira que está em Assunção (Paraguai) à procura de relatos sobre a ditadura de Stroessner a fim de escrever uma ficção. Nesse percurso, histórias ouvidas e lembranças familiares revelam-se e embaralham-se na imaginação da personagem. A narrativa pretende dialogar com o gênero reportagem, estabelecendo um jogo entre o romance de ficção e não-ficção. A autora Sara Pinheiro é dramaturga e atriz. Graduada em Letras pela UFMG, e em Teatro pelo Centro de Formação Artística e Tecnológica (Cefart) da Fundação Clóvis Salgado e pela École Philippe Gaulier (França). Em Belo Horizonte, foi integrante da Cia. do Chá, e colaboradora do grupo de teatro de bonecos Pigmalião Escultura que Mexe. Ao lado de Vinícius Souza, foi idealizadora da mostra Janela de Dramaturgia, que teve suas três primeiras edições publicadas em coletânea pela editora Perspectiva/ SP. Como dramaturga, seus últimos trabalhos foram “Cine Splendid” (Coprodução entre Brasil e Paraguai pelo Programa Iberescena), “O Berro” (U.V.A Conexões artísticas), “Noturno” (grupo Teatro Invertido), e “S/TÍTULO, Óleo sobre tela” (Cia. do Chá).

 

Ana Claudia Costa dos Santos

 “Fabulário”, premiado na categoria de Poesia, divide-se em três partes: “Museu mínimo”, que consiste em uma tentativa de apropriação poética de diferentes linguagens, como a do cinema ou a dos sonhos; “Microcosmo”, na qual os poemas se inspiram em gêneros textuais diversos (carta e notícia, por exemplo); e “Fabulário”, seção homônima ao livro, em que os poemas contam pequenas histórias. Ao longo da obra, vários sujeitos líricos se manifestam, constituindo um mosaico de personagens que, de certa forma, revelam aspectos da subjetividade da autora. A autora Ana Claudia Costa dos Santos nasceu em 1984, em Porto Alegre (RS), onde mora e trabalha como revisora de textos. É mestre em Estudos Literários Aplicados pela UFRGS e graduada em Jornalismo pela mesma instituição. Tem textos publicados em antologias nas revistas Bravo!, Cult e Ficções e no jornal Rascunho. Foi contemplada, em 2008, com a Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Artística, na categoria Criação Literária. “O que Faltava ao Peixe”, livro de contos resultante do projeto premiado, foi lançado em 2011 pela Libretos, com edição financiada pelo Fumproarte. Em 2017 estreou na poesia com a coletânea Móbile (Editora Patuá).

 

Marana Borges

"Mobiliário para uma fuga em março", vencedor na categoria Romance é um "romance-poema", na definição da autora, que parte dos objetos de uma casa para construir a arquitetura (cheia de fendas) de uma família. A autora Marana Borges, nascida em 1984, em São Paulo, é jornalista formada pela Universidade de São Paulo e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa. Colaborou com diversos veículos de comunicação e foi correspondente em Portugal. Seu trabalho artístico abrange a poesia, a narrativa e a música popular. Em 2010 ficou em primeiro lugar no programa de bolsas de criação literária da Fundação Biblioteca Nacional. Também foi finalista do Prêmio Nacional Sesc de Literatura em 2015 e 2016. A escritora participou da antologia de contos "De tudo fica um pouco" (Dublinense, 2011). Seu livro de poemas "Breve ensaio sobre a morada" deve ser publicado em 2018.

Saiba quais foram os jurados do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura

CONJUNTO DA OBRA POESIA JOVEM ESCRITOR FICÇÃO
Anelito Pereira de Oliveira Ricardo Aleixo Rogério Tavares João Santiago
Jacyntho Lins Brandão Antonio Barreto Flávia Figueirêdo Luís Henrique Pellanda
Sílvia Rubião Tonico Mercador Cleber Cabral Ana Paula Maia

Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura

O Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura tem revelado e reconhecido grandes fazedores da escrita. Na categoria “conjunto da obra” já foram homenageados Adélia Prado (2016), Fábio Lucas (2015), Ferreira Gullar (2013), Rui Mourão (2012), Affonso Ávila (2011), Silviano Santiago (2010), Luís Fernando Veríssimo (2009), Sérgio Sant’Anna (2008) e Antonio Candido (2007).

Em 2016, a obra vencedora na categoria “Ficção (Romance)” foi “Floresta no Fim da Rua, de Silvio Rogério Silva (SP). As menções honrosas foram para a obra “Começo em Mar”, da escritora Vanessa Maranha, e para “Pela primeira vez em muito tempo”, de Vinícius Bopprê Oliveira.

Já na categoria “Poesia” a obra vencedora foi “Um Carro Capota na Lua”, do autor Tadeu de Melo Sarmento (PE). O “Jovem Escritor Mineiro” foi Jonathan Tavares Diniz (MG), que venceu com o projeto “Cólera”.